A dor mudou de endereço: LER/DORTs revelam transformações no trabalho e por que alguns riscos permanecem

A dor mudou de endereço: LER/DORTs revelam transformações no trabalho e por que alguns riscos permanecem

Profissional em escritório segura o antebraço com expressão de desconforto diante do computador, ilustrando LER/DORT no trabalho atual

publicado por

Paulo Zétola

A dor relacionada ao trabalho mudou de endereço. Mas não desapareceu.

Recentemente, revisitei um estudo meu de quase 30 anos. Era minha dissertação de mestrado, redigida a partir do acompanhamento de 125 trabalhadores de uma indústria eletroeletrônica entre 1993 e 1998. Ao reler o material, deparei-me não apenas com tabelas, diagnósticos e testes estatísticos. Encontrei lembranças de pessoas jovens, muitas delas mulheres, que chegavam ao ambulatório com dor nos punhos, nos ombros e nos braços. Tudo isso me levou a uma pergunta: aprendemos, de fato, a prevenir as LER/DORT?

O que os anos 1990 mostravam

Naquela época, o ritmo do trabalho era quase palpável. Observávamos a linha de montagem, a peça que chegava, o movimento que precisava ser repetido e o tempo determinado pela produção.

Na amostra, 73,6% dos casos ocorreram em mulheres. Predominava a faixa de 31 a 35 anos, seguida pelas de 26 a 30 e de 36 a 40. Eram pessoas em plena fase produtiva, expostas à alta repetitividade, pouca variação, posturas inadequadas e esforço estático.

A tendinite de punho era o diagnóstico inicial mais frequente, seguida pela bursite de ombro; o punho direito, a região mais acometida. O motivo era claro: flexões, extensões e desvios laterais repetidos, pouca variação das tarefas e recuperação insuficiente faziam parte da rotina.

Mas um dado me marcou mais do que os demais. Ao final, a Síndrome Dolorosa Crônica estava presente em 65,6% dos casos. Muitos trabalhadores chegavam com uma lesão localizada e evoluíam para quadros persistentes, mais complexos e difíceis de tratar. A dor passava a interferir na capacidade funcional, no retorno ao trabalho e até na identidade profissional.

Hoje: um perfil mais heterogêneo

Quase três décadas depois, os estudos mostram um perfil mais heterogêneo. A comparação exige cautela: minha pesquisa acompanhou casos individuais em uma empresa, enquanto os levantamentos atuais se baseiam sobretudo em notificações do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) e em estudos nacionais e regionais.

Ainda assim, eles apontam maior concentração em faixas etárias elevadas e confirmam que o padrão industrial não desapareceu. Repetitividade, postura inadequada e esforço estático permanecem, agora somados a:

  • Pressão por produtividade

  • Menor autonomia

  • Intensificação da jornada

Ergonomia física: essencial, mas já não suficiente

Durante muito tempo, a prevenção das LER/DORT foi associada principalmente à ergonomia física: altura da bancada, posição do punho, desenho da ferramenta, mobiliário e ritmo da linha. Tudo isso continua essencial. Mas já não é suficiente.

O setor de serviços

Estudos com bancários mostram como metas excessivas, redução das equipes, uso intensivo de tecnologias e medo do desemprego podem ampliar o sofrimento físico e mental. Embora não represente todo o cenário nacional, o setor bancário ajuda a compreender a organização contemporânea do trabalho.

O teletrabalho

No teletrabalho, cadeira e mesa importam, mas não explicam tudo: a fragmentação da jornada, a redução das pausas e a falta de limites entre vida pessoal e trabalho também pesam.

A máquina mudou de lugar

Hoje, a máquina nem sempre está diante do trabalhador. Às vezes, ela aparece no painel de metas, na vigilância digital ou na sensação de que nunca é possível desacelerar. O comando deixou de ser apenas mecânico e passou a ser também digital, organizacional e psicológico.

Isso não elimina os fatores biomecânicos; torna sua interação com o trabalho ainda mais complexa. O punho continua se movimentando, o ombro sustentando carga e a coluna exposta.

A boa notícia, que desenvolvo na parte final da coluna, é que a prevenção estruturada produz resultado.

Este artigo é uma adaptação da coluna "A dor mudou de endereço", publicada pelo Professor Dr. Paulo Zétola na edição de setembro de 2026 da Revista Proteção. A coluna Trabalho Saudável aborda temas estratégicos de saúde ocupacional e gestão de SST.

👉 Leia a coluna na Revista Proteção

Paulo Zétola é médico do trabalho, especialista em Gestão de Saúde Corporativa, professor da UFPR e CEO do Instituto iZETA.

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